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Storytelling nos games: a arte de criar histórias jogáveis

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O que é mais importante: gráficos ou história nos games? Essa é a pergunta que todo gamer já ouviu ou fez.

É inegável que a evolução gráfica sempre foi o principal motivo para gastarmos nossa grana em novos consoles ou em PCs mais potentes, com o passar dos anos. Mas não só de um visual caprichado vivem os games.

Franquias como Assassin’s Creed, God of War, Metal Gear, Resident Evil e GTA fazem com que parte da experiência do game passe por entender o storytelling e interagir com ele. Do contrário, a jogabilidade e os gráficos, por mais incríveis que sejam, não entregarão todo o potencial e imersão do título.

Mas antes de analisar os produtos finais, é preciso entender como o storytelling é criado. Para isso, fui aprender com os mestres em contar histórias na indústria do entretenimento: a Pixar.

Storytelling segundo a Pixar

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O curso ‘The Art of Storytelling’, dentro do programa ‘Pixar In a Box‘, da Khan Academy, traz toda a teoria aplicada na prática do stoytelling nas animações da empresa.

Fazendo esse treinamento, descobri coisas como o fato do filme ‘Monstros SA’ não ser sobre sustos, empresas ou, necessariamente, monstros. Mas sim sobre o sentimento paternal que surge em Sulley, quando ele encontra a menina Boo, se tornando um pai pra ela. E a inspiração surgiu na própria experiência do diretor de animações Pete Docter, que tinha recém ganhado a primeira filha, na época. Demais, né?

Mas como contar uma história? Como fazer um storytelling? A Story Artist da Pixar, Valerie Lapointe explica o conceito de storytelling:

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Mas não é toda narrativa que vai te prender, como cita a própria Lapointe: “algumas histórias te agarram emocionalmente, te envolvem e te puxam para dentro”.

De acordo com o curso da Pixar, um bom storytelling conta com um ‘Story Spine’, ou ‘A coluna vertebral da história’. Essa ‘Story Spine’ tem oito ‘Story Beats’, ou seja, tópicos que ajudam a estruturar a história de maneira simples e rápida. E, ao fim, existe a moral da história, que seria um ‘Story Beats’ bônus.

Os ‘Story Beats’ são divididos em três atos:

Ato 1 – Introdução
– Era uma vez…
– Todo dia…
– Até que um dia…

Ato 2 – A jornada
– Por causa disso…
– Por isso…
– E por isso…

Ato 3 – Crise e resolução
– Até que finalmente…
– Desde então, toda vez que…
– A moral da história é…

É possível colocar quase toda história bem contada nesse ‘Story Spine’. Quer ver:

Silent Hill | PSX – 1999

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Ato 1 – Introdução
– Era uma vez… um homem chamado Harry Manson, viúvo de sua esposa Jodie Manson;
– Todo dia… ele cuidava da sua filha adotiva Cheryl Manson, quem encontrou abandonada em uma estrada próxima de Silent Hill;
– Até que um dia… Cheryl pede a Harry para que eles viajem à cidade de Silent Hill. Harry aceita, mas no caminho eles sofrem um acidente na estrada;

Ato 2 – A jornada
– Por causa disso… Harry desmaiou e, quando acordou, percebeu que sua filha havia desaparecido;
– Por isso… Harry adentrou na estranha cidade, enfrentando criaturas bizarras, locais medonhos e buscando entender o que se passava ali;
– E por isso… Harry descobriu que sua filha é a reencarnação de Alessa, uma mulher sobrenatural que foi queimada viva, e que moradores da cidade são participantes de um ritual que pretendia sacrificar sua filha;

Ato 3 – Crise e resolução
– Até que finalmente… Harry derrota o demônio dentro de Alessa, que, ao ser libertada, entrega uma recém-nascida ao Harry;
– Desde então, toda vez que… quem ousou entrar em Silent Hill viveu pesadelos como o de Harry;
– A moral da história é… que o amor paternal pode enfrentar qualquer medo.

Viu só? Vamos tentar um exemplo menos macabro:

Donkey Kong Country | Snes – 1994

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Ato 1 – Introdução
– Era uma vez… um macaco chamado Donkey Kong e seu sobrinho inseparável Diddy Kong;
– Todo dia… eles saboreavam suas bananas, em uma enorme reserva de frutas embaixo da casa do Donkey Kong, localizada na Kongo Jungle;
– Até que um dia… o pirata King K. Rool e seus capangas roubaram todas as bananas dos protagonistas;

Ato 2 – A jornada
– Por causa disso… a dupla sai em busca de seu tesouro, coletando bananas no caminho e enfrentando inimigos;
– Por isso… eles encontram diversos animais dispostos a ajudar, que se tornam seus amigos na jornada;
– E por isso… eles conseguem vencer os desafios e chegar ao barco pirata do vilão;

Ato 3 – Crise e resolução
– Até que finalmente… eles enfrentam King K. Rool, derrotando-o e recuperando toda sua reserva de bananas;
– Desde então, toda vez que… sai de casa, Donkey Kong confere seu tesouro;
– A moral da história é… com a ajuda da família e dos amigos é possível vencer desafios.

É claro que dei uma adaptada em alguns pontos, já que nem todos ficam muito claros no produto final. Mas esse é um exercício anterior ao desenvolvimento do storytelling nos games e nos filmes, dando gancho para a criação da narrativa como um todo.

A moral da história não precisa ficar explícita ao receptor, mas, segundo o Story Artist da Pixar, Derek Thompson, o tema central deve estar bem fixado na cabeça dos storytellers.

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Games com storytelling cinematográficos

Os games têm se tornado um produto de entretenimento ainda mais completos, com storytellings melhor trabalhados. Prova disso é Mortal Kombat. Desde o primeiro jogo, o game de luta já contava com uma história interessante:

“500 anos atrás, Shang Tsung convocou Goro para derrotar o Grande Kung Lao no Torneio dos Shaolin. Goro venceu e ainda conquistou outros 9 torneio. Se vencesse o 10º, toda a humanidade se desintegraria na escuridão do Outworld. Liu Kang foi treinado desde criança para vencer Goro e recuperar o equilíbrio. Com a ajuda do Deus do Trovão Raiden, do ator americano Johnny Cage e da policial americana Sonya Blade, Liu Kang venceu Goro e Shang Tsung, evitando a tragédia”.

Claro que por trás dessa narrativa há a história de cada personagem e de como cada um entrou no torneio. Esse storytelling era passado ao gamer por meio de cards informativos nos primeiros jogos da franquia, esperando que cada jogador fosse buscar o conhecimento.

Hoje, o Mortal Kombat conta com um storytelling cinematográfico e que combina a narrativa ao gameplay, jogado no modo história do MK9 e MKX. Um dos criadores da série, Ed Boon explicou durante a Brasil Game Show 2017 como é o processo de criação:

No hall dos maiores gênios do storytelling nos games, Hideo Kojima revolucionou a indústria quando investiu mais do que apenas jogabilidade. “A primeira vez que eu planejei o Metal Gear, as pessoas diziam que storytelling não funcionaria para games de ação. Então eu provei para o mundo que os games poderiam ser uma valiosa mídia para contar histórias”, disse Kojima em entrevista ao IGN. E que história contou Kojima! Espionagem, robôs gigantes, clones, organizações criminosas… Tem de tudo um pouco no enredo de MGS.

Se você quer entender um pouco dessa saga, o IGN explicou os fatos até a chegada do Metal Gear Solid V: The Phantom Pain (ALERTA DE SPOILERS!):

Além do Metal Gear, você consegue descobrir qual é o game a partir do storytelling resumido?

Storytelling nos games indies

Os games indies são um grande laboratório para produções com storytelling mais bem desenvolvido. Isso porque o jogo indie precisa se diferenciar e ousar pra atingir o público, já que não conta com os milhões de dólares dos grandes estúdios para desenvolver seus games e o marketing.

A nossa equipe foi até a área indie da Brasil Game Show 2017 para descobrir como os estúdios independentes do Brasil desenvolvem seus storytellings.

O game Black Iris, da Hexa Game Studio, se inspirou em novelas coreanas para se destacar, com um enredo focado em sobrevivência e tragédias.

A Void Studios tem uma técnica apurada de observação e testes para criar e ajustar a história dos seus jogos. Como foi o caso dos games épicos Eternity e Valiant.

Dolmen é um game que mergulha o jogador dentro do storytelling. Os caras da Massive Work Studio têm um roteirista profissional, que explicou um pouco da proposta da narrativa.

Com um storytelling delicado, White Lie conta a história de um coelho de pelúcia que busca por sua dona desaparecida. O pessoal da Ambize contou como chegou nessa inspiração:

Criar storytelling para um party-game não é tarefa fácil. Mas a galera da Mad Mimic conseguiu desenvolver um enredo simples, interessante e que faz um ótimo background para a jogabilidade.

Com excelentes jogos no mercado, como Chroma Squad e Knights of Pen & Paper, a Behold Studios tem um processo de criação bem orgânico de seus storytellings.

A inspiração para a narrativa de um game pode vir de todo lugar. No caso de Evil Light, são diversas as referências.

Mas nem só de storytellings dramáticas ou épicas vivem os games. O non sense também tem espaço. Com uma pegada meio Robot Chicken, desenho sem noção do Adult Swim, Bagunça Espacial aposta em elementos brasileiros.

Esses foram só alguns games da área indie da BGS 2017 que a gente conseguiu registrar. Mas muitos outros capricharam no storytelling, assim como jogos independentes mundialmente famosos que apostaram em um enredo mais forte. É o caso de Castle Crashers, Undertale, The Binding of Isaac, The Stanley Parable e Papers, Please.

Com tantos jogos fantásticos com enredos épicos, lendas que dão valor ao storytelling nos games e produções simples mas que chamam atenção com narrativas bem trabalhadas, a história se torna elemento muito importante. Não é que ela seja mais ou menos essencial que gráficos ou jogabilidade. A moral da história é… bem, melhor deixar você mesmo finalizar isso. :)

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