Como o Band Kids marcou toda uma geração

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O final dos anos 90 e início dos anos 2000 foi mágico para quem é fã de animes. Isso porque foi quando o segundo boom de desenhos japoneses estourou – o primeiro havia sido nos anos 90, com Cavaleiros do Zodíaco e Yu Yu Hakusho.

Com o sucesso de Pokémon no programa da Eliana, na Record, em 1999 – chegou a atingir 13 pontos de audiência, um feito para uma atração matinal – a Rede Bandeirantes resolveu apostar nas produções orientais e criou o Band Kids, no dia 14 de agosto de 2000.

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A principal diferença entre o Band Kids e os demais programas infantis da época era o horário. Transmitido das 15h às 17h, a atração era um alívio para as crianças que estudavam pela manhã na época, já que as outras opções eram os considerados programas femininos ou as novelas.

“A gente quer criar um público infantil nosso, que fica meio sem opção nessa faixa da tarde, dominada por programas femininos. Em um primeiro momento, é claro que vamos tentar conseguir isso por meio de desenhos. São eles que atraem a audiência, sem dúvida. Mas, depois, a ideia é ampliar as atrações até criar o canal”, disse o vice-presidente do canal da época, Roberto de Oliveira, à Folha, em 2000.

Apesar da ambição de criar o “canal Band Kids”, como a finada Fox Kids, ou como a Cartoon Network, Nickelodeon e, mais recentemente, Discovery Kids, o grande objetivo alcançado foi, de fato, marcar uma geração.

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Projeto Band Kids era ainda mais ambicioso. Foto: Arquivo Pessoal/Renata Sayuri

Animes do Band Kids: DBZ como carro-chefe

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Quando chegou à grade da TV aberta, o Band Kids apostou no Dragon Ball Z para ser o carro-chefe da atração. Deu certo! Se Pokémon fez um sucesso absurdo na Record, em 1999, DBZ era o anime sensação do momento em 2000.

Antes do Dragon Ball na Band, a série só havia sido transmitida na TV aberta no SBT, de 1996 a 1999. Porém, apenas a primeira saga do anime foi apresentada, ainda com Goku pequeno e foco na busca pelas esferas do dragão.

Com as sagas de Vegeta, Freeza e Cell (essa última demorou mais tempo para ser liberada) na bagagem, o Band Kids foi o único a transmitir Dragon Ball Z sem cortes.

As mortes causadas por Napa, a batalha sangrenta entra Goku e Vegeta, o sofrimento dos namekuseijins nas mãos de Freeza, a luta contra as Forças Ginyu e a primeira transformação em Super Sayajin do Goku logo consagraram o anime como carro-chefe do programa.

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Os momentos sangrentos de Dragon Ball Z não foram Censurados na Band – para nossa alegria.

A Paris Filmes, inclusive, se aproveitou do hype e lançou no cinema, em julho de 2000, um OVA do DBZ criado em 1990. Trata-se de Dragon Ball Z: O Filme – A Árvore do Poder.

Outros animes do Band Kids de destaque

Mas não só de DBZ viveu o Band Kids. Diversos outros desenhos que passavam na Band pegaram carona no sucesso e tiveram apostas certeiras.

Bucky

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Se tem um anime que chegou próximo de destronar Dragon Ball Z no Band Kids foi Bucky. Pouco popular mesmo no Japão, por aqui foi sucesso.

A história gira em torno de um universo com 12 mundos. Cada mundo tem uma Grande Criança, responsável por manter seu mundo em ordem. Bucky foi escolhido para ser uma dessas Grandes Crianças e tem o objetivo de ser o governador dos mundos (sendo, aqui, um traço de anti-heroísmo). Ele conta com a ajuda de um espírito, representado por uma criatura redonda rosada, que ao abrir a mão explode.

O enredo parece confuso, mas prende de uma forma incrível. Além de contar com elementos populares na época: crianças e criaturas parceiras combatendo o mal.

El Hazard

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Para aqueles que curtem heróis divididos por elementos esse é um excelente anime. Pessoas do mundo real se transportam para o misterioso mundo de El Hazard e ganham poderes nesse local. Lá eles também conhecem as sacerdotisas da água, do fogo e do vento.

Antes de tentar voltar à Terra, os heróis enfrentam demônios e a inveja do antagonista. O enredo é mais comum, mas mesmo assim tem uma dose boa de ação.

Tenchi Muyo!

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É estranho como um anime que flertava com o humor e drama conseguia ter uma história de magia e lutas tão bem montada. Não se esperava grandes batalhas no Band Kids quando Tenchi Muyo! aparecia. Elas ocorriam vez ou outra, mas não importava. A conexão do galante Tenchi com mulheres apaixonadas por ele – e essa rivalidade entre as pretendentes – criou um roteiro bastante complexo e divertido.

Desenhos ocidentais do Band Kids

Os desenhos ocidentais também tiveram espaço na Band. Cadillacs e Dinossauros – sim, aquele do game da Capcom – saiu do início dos anos 90 direto pra programação do Band Kids, assim como Dragões Alados.

Mais antigo ainda, Os Seis Biônicos mostraram todo o charme das animações dos anos 80, com traços de animes da empresa japonesa TMS, a mesma de Monster Rancher e Hamtaro.

Já O Mago era uma produção da época, com uma qualidade de trama e animação bem interessante. A história de Ace Cooper, um mágico que resolve combater o crime foi bem aceita pelas crianças e fazia uma boa sombra aos animes.

Kira e o storytelling do Band Kids

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Foto: Arquivo Pessoal/Renata Sayuri

Mais do que um simples reprodutor de animes, o Band Kids era um programa muito bem desenvolvido. O diretor era experiente no público infantil. Renato Fernandes passou pela TV Cultura, no Castelo Rá-Tim-Bum, e na Rede TV!, com o Galera da TV!

E o Know How fez diferença. O Band Kids criou um próprio storytelling, que colocava a heroína Kira (Renata Sayuri) como protagonista de interações com o robozinho Yuki, com a voz de Adriano Petersen – que fez a Celeste em Castelo Rá-Tim-Bum, e com o Grande Olho, uma espécie de oráculo que orientava ela no objetivo de se tornar uma guerreira – com a voz de Tatá Guarnieri, dublador do Kenshin, no anime Samurai X.

E foi com esse enredo que Fernandes inseriu assuntos que ensinavam algo para as crianças, sem que elas achassem chato. “Apesar de não ser um programa educativo, a Kira vai falar de cidadania e outros temas importantes enquanto luta por seu objetivo”, afirmou na Folha o diretor, antes da estreia.

Kira, inclusive, se tornou um ícone dessa geração. A atriz Renata Sayuri disse ao “Canal Só Observo” que o sucesso foi surpreendente.

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“Ficávamos surpresos com o volume de emails e cartas recebidas de todo país, e perceber como ela (a Kira) entrava no universo imaginário do público, como se fosse uma personagem tão construída, assim como o próprio Goku. Uma vez aconteceu num caso, de quando um fã mirim conseguiu o telefone da produção do programa. Ele falando com a produtora pediu para que avisassem a “Kira” para alertar o Goku das verdadeiras intenções de Vegeta em determinado episódio”.

Globo, Kelly Key e a decadência

Quando Dragon Ball Z chegou ao fim da saga Freeza, demorou um bom tempo até que a saga de Cell fosse de fato adquirida pela Band. Mas aconteceu e ver Trunks fatiando Freeza, além do Vegeta se tornando super sayajin, foram momentos mágicos para as crianças da época.

Mas a Band deu mole e a Globo, que já vinha emplacando bons animes em sequência, como Digimon, Monster Rancher, Medabots, Sakura Card Captors e Hamtaro, foi lá e comprou os direitos da saga Boo, de Dragon Ball Z, em 2001.

Com o fim do contrato dos episódios anteriores, o Band Kids teve que parar de transmitir as outras temporadas e a Globo passou a liderar o mercado de animes. Sem o carro-chefe, a audiência despencou e o programa foi cancelado, assim como aquele objetivo de criar um canal pago para crianças. Nem o orçamento de R$ 1 milhão por ano segurou a atração.

Desde então, a emissora tentou várias vezes reviver os bons tempos da atração. Uma das ideias brilhantes uniu a apresentação da cantora Kelly Key e a exibição de Cavaleiros do Zodíaco, em 2004. Em 2005 ela saiu, mas a Band tentou ainda continuar com o CDZ, dividindo espaço com os animes Yu Yu Hakusho, Patlabor e a volta de Tenchi Muyo!

Mas não teve jeito. Nunca mais houve um apelo tão grande pelo Band Kids quanto na época de Kira. Em 2007, outra tentativa. Desta vez com apresentação de Luciano Amaral e desenhos como Monster Rancher e A Lenda do Dragão. Não rolou e Luciano foi pra Rede TV!

De 2009 pra cá, apostou em atrações e desenhos requentados da parceria com a Nickelodeon, Power Rangers e algumas aparições de Os Simpsons. Em 2012, tentou retomar o sucesso com Dragon Ball Kai e GT, além de novamente o CDZ. Mas o caminho mesmo era a extinção de programas infantis, como a TV Globinho.

Ao menos nas nossas memórias o Band Kids será eterno!

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4 COMENTÁRIOS

  1. Preciso de ajuda. Há muitos anos eu assisti um anime, não me lembro se foi na Band ou na Manchester, sobre três mulheres que dominavam 3 elementos : água, ar e fogo. Não é Guerreiras Mágicas de Rayearth. Por favor me ajude gostaria muito de vê-lo. Obrigada

  2. Poxa, muito boa a matéria, como da uma saudade e vontade de ser criança novamente. Quantas tardes gostosamente bem gastas assistindo estes desenhos.
    É, que tempo bom, que não volta nunca mais… Obrigado por me recordar!

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