Desvendando a arte da dublagem

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Nunca se dublou tanto! Desde quando Dalva de Oliveira deu voz à Branca de Neve em 1937, o mercado do Brasil abriu as portas para uma nova profissão que após 80 anos é reconhecida mundialmente pela excelência. Afinal é isso que um dublador tem em seu papel principal, a excelência, fazendo com que a arte da dublagem permita nos identificarmos e nos aproximarmos ainda mais das personagens.

Mas vem cá, o que exatamente é dublagem? Como funciona? Como surgiu? Como é o processo e o que preciso para ser um dublador?

A história da dublagem

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Dublagem nada mais é do que a substituição da voz original de produções audiovisuais (filmes, séries, desenhos, games, etc.) pela voz, e também interpretação, de um ator no idioma de determinado país onde a obra está sendo veiculada. Existem ainda também dublagens no mesmo idioma da produção original, geralmente para aperfeiçoar o som ou quando há falhas de captação. Comerciais utilizam muito esse recurso.

Em um rápido retrospecto para contar um pouco da história da dublagem, sabemos que os primeiros filmes com som apareceram na década de 1920, mas o cinema começou a incluir vozes somente em 1927, com o filme “The Jazz Singer – O Cantor de Jazz” que incluía algumas falas, porém o primeiro filme totalmente “falado” chegou as telas somente em 1929: ‘Luzes de Nova York’.

Mesmo já com a possibilidade de inclusão de falas, ainda assim o mercado encontrava dificuldade para dar voz às obras até Jacob Karol inventar, em 1930, um sistema de gravação que permitia sincronizar áudio e imagem. Eis aqui o nascimento da técnica que hoje conhecemos como dublagem.

No Brasil, começou-se a dublar primeiramente os desenhos animados para o cinema, o que permitiu ao público infantil entender e se divertir com o mundo da animação. “Branca de Neve e os sete anões” marcou o início das atividades da dublagem brasileira, seguido por outras criações da Walt Disney como Pinóquio e Bambi.

 

Mercado da dublagem

Atualmente o mercado de dublagem brasileiro é muito grande, pois além dos filmes no cinema, existem muitas séries, documentários, desenhos, games, entre muitas outras produções que necessitam de uma voz que caracterize seus personagens.

“Nunca se dublou tanto! Além da demanda de TV a cabo, agora temos também os serviços de streaming e absolutamente tudo é dublado. Isso é ótimo, pois a dublagem começa a se difundir, chegando a novas praças como Porto Alegre, Curitiba, Minas, Distrito Federal, etc… Dessa forma, a dublagem deixa de se restringir a São Paulo e Rio e começamos a ter, de fato, uma versão mais brasileira!”, conta Bruno Sangregorio – ator e dublador que já emprestou sua voz para personagens em algumas séries como Cavaleiros dos Zodíaco, The Walking Dead, Game Of Thrones e Unreal; além de games como os da Lego (Jurassic World e Marvel Super Heroes 2), e FIFA 18 e 19.

Bruno Sangregório – Ator, dublador e roteirista (Foto: Arquivo pessoal)

Mas a dublagem ainda é um pouco controversa para algumas pessoas. Talvez porque não sabem o quanto a dublagem é importante para o entendimento mais claro de determinada narrativa. A boa dublagem pode-se dizer que é aquela que combina respeito e fidelidade ao material original, mas com a naturalidade na versão a qual está sendo produzida. “Sabemos da importância da dublagem, e de seu valor. Acredito que buscamos fazer o melhor sempre, porém respeitando o original”, conta Bruno. “Existem seus prós e contras. Acho que a adaptação é necessária para uma boa dublagem, mas respeito ao original está acima de tudo. Precisamos fazer exatamente aquilo que está proposto em tela”, completa.

Mesmo tendo que deixar o mais fiel possível ao original, os profissionais fazem de tudo para entregar o melhor trabalho e assim conquistar o público, principalmente em obras infantis, onde a criançada ainda não consegue acompanhar legendas.

Em entrevista para o jornal O Estado de São Paulo a atriz, dubladora e locutora Mabel Cezar, que dá voz à Anne Hathaway, Jennifer Aniston a esperta Luluzinha, conta que uma revolução aconteceu com o avanço da tecnologia digital em todos os campos, incluindo o da dublagem. “É preciso entender que, no Brasil, o mercado atual de dublagem é gigante e promissor, mas com condições bem diferentes da era de ouro.”

Atriz e dubladora Mabel Cezar (Foto: Guilherme Pinto)

Esses tempos de ouro da dublagem brasileira, entre os anos 1960 e 1990, foram protagonizados pelos estúdios Álamo e pelo pioneiro Herbert Richers, criando um verdadeiro paraíso para o setor. Na época, os profissionais de Richers criaram conhecidas versões brasileiras de atores como Bruce Willis e Arnold Schwarzenegger e ainda a de Branca de Neve, refeita em 1950.

Agora convenhamos, assistir filmes, séries ou outra produções com atores em sua voz original é bom, mas a dublagem brasileira tem seu charme.

“Hoje, sem dúvidas, temos condições de fazer uma dublagem muito melhor, pois a tecnologia está em nosso favor. Porém, gravamos sozinhos em estúdio (antigamente os atores iam juntos para a bancada) e isso pode fazer com que a qualidade caia um pouco (se o filme não for bem cuidado), pois os atores não contracenam em estúdio. Talvez por isso as pessoas pensem que perdemos o charme daquela dublagem mais antiga… Ainda assim, acho que hoje temos produtos incríveis e ela só vem melhorando a cada dia”, revela Sangregorio.

Processo da dublagem

O processo de dublagem parece ser um tanto quanto simples, mas requer o trabalho de pessoal experiente no ramo.

A dublagem é feita em estúdios especializados, com profissionais  de diversas áreas, dentre os quais os dubladores que, com sua voz e interpretação, substituem as vozes de obras estrangeiras por uma versão nacional.

Tudo começa quando os clientes dos estúdios de dublagem – distribuidoras de canais de televisão ou de filmes por exemplo – enviam um prospecto do que precisa ser dublado. E aí entra o papel do dublador.

Depois de assistir ao vídeo e ler o script, dividido nos chamados anéis (roteiros em trechos de 20 segundos) é feita a separação da voz do personagem para saber aonde cada dublador, que foi selecionado pelo diretor de dublagem do estúdio por meio de testes, irá participar. O dublador só tem acesso ao texto no dia da gravação.

No processo de gravação, o dublador assiste às cenas em um monitor, ouve o áudio original e então, na sequência, grava as falas do seu personagem. O diretor de dublagem faz a coordenação desse processo, enquanto um operador de audiovisual capta o som e libera as cenas que serão dubladas.

Depois de tudo dublado e gravado, o material passa ainda pelo processo de mixagem para sincronizar as falas e ajustar volumes do áudio. Há casos também em que a obra original chega sem a trilha sonora e os efeitos, e então é preciso adicioná-los no estúdio.

O material depois de pronto é revisado, gravado e enviado para o cliente dar o aval final. A gravação pode ser realizada em diversas mídias, podendo ser um DVD ou até mesmo uma fita betacam digital, comumente utilizadas em emissoras de televisão.

Muito interessante, não é mesmo?! E aí, bateu aquela vontade de passar por esse processo?

O que é preciso para ser um dublador

Ser dublador é fazer parte de uma profissão que exige mais do que apenas talento e vontade. Quem deseja trabalhar com dublagem, precisa antes de tudo estudar. Por isso, um dos requisitos da profissão é cursar artes cênicas (graduação) ou teatro (profissionalizante), como conta o ator e dublador Wendel Bezerra sem seu canal no youtube.

Na legislação brasileira, o trabalho de dublador é regulamentado e necessita de um registro profissional de ator para poder trabalhar.

– Até os 16 anos, a autorização do registro profissional para dubladores só é concedida mediante autorização do Juizado da Infância e da Juventude.

– Dos 16 aos 18 anos de idade, o registro profissional para dubladores fica condicionado à autorização dos pais ou responsáveis legais.

– Com mais de 18 anos, é necessário então o registro profissional, que é expedido pelo Ministério do Trabalho e Emprego, o DRT. Pode ser requerido também pelo SATED regional (Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos e Diversões), que emite um documento de capacitação profissional, o qual é acatado pelo Ministério do Trabalho e Emprego. Para o registro no MTE, são necessários diploma ou certificados de conclusão de curso profissionalizante (técnico ou superior) reconhecido pelo MEC, ou o atestado de capacitação do sindicato.

Como na dublagem não existe muito tempo de preparação, uma vez que os dubladores descobrem o que precisam fazer pouco tempo antes de executar o trabalho, é preciso estar sempre atento às técnicas. Postura diante do microfone, respiração, dicção, interpretação e principalmente sincronismo labial são fundamentais e por isso existe a importância de um bom curso de dublagem.

“Quem tá chegando precisa entender que não basta ser fã. Gostar de dublagem é um bom primeiro passo pois a profissão requer muita paixão, mas acima de qualquer coisa está o ator. E é o BOM ATOR quem se destaca. Então um bom curso de teatro é fundamental e dar atenção ao processo é mais importante ainda. Não se trata apenas de uma burocracia (ter o registro de ator)”, explica Bruno Sangregório.

Quero ser dublador!

Um reality show muito divertido que além de entreter, e ser pioneiro no ramo, nasceu com o propósito de aproximar o público da arte da dublagem!

Produzido pela Dubrasil em parceria com a Intra7filmes, o reality acompanha a evolução de 15 pessoas de diferentes partes do país, amantes de dublagem e entusiastas, que competem uns com os outros em busca de um só prêmio, a profissionalização completa como ator e especialização na área da dublagem!

O vencedor fará um curso de teatro profissionalizante na escola RECRIARTE e Especialização em Dublagem na Dubrasil.

Se você também é amante dessa arte, pode acompanhar o reality pelo canal da Dubrasil no Youtube.

Para finalizar, Bruno Sangregório deixa um recado ao público para que a arte da dublagem venha crescer cada dia mais. “Leiam livros… Vejam filmes! Como diria meu amigo Hermes Baroli – Não só veja como exija uma boa dublagem e exerça seu direito como consumidor. Se não estiver legal, reclame (de forma saudável, claro), mas reclame! Nos deixe saber… Só assim cuidaremos para que o produto seja cada vez melhor!”.

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